Cravada no Xadrez: Absoluta, Relativa e Como Explorar
A cravada acontece quando uma peça atacada não pode (ou não deve) sair do lugar, porque atrás dela, na mesma linha, está uma peça mais valiosa. Se a peça de trás é o rei, a cravada é absoluta e mover a peça da frente é ilegal; se é a dama, uma torre ou outra peça, a cravada é relativa e mover é permitido, mas custa caro.
Como funciona a cravada
Só três peças conseguem cravar: bispo, torre e dama, as peças de longo alcance. A cravada sempre envolve três personagens na mesma linha (diagonal, coluna ou fileira):
- a peça que crava, que ataca;
- a peça cravada, que fica no meio;
- a peça protegida, que está atrás e é mais valiosa.
A peça cravada continua no tabuleiro, mas fica quase paralisada: não pode sair da linha sem expor o que está atrás. Em muitos casos ela também deixa de defender as casas que defendia antes.
Cravada absoluta
Quando a peça de trás é o rei, a regra do xadrez proíbe mover a peça cravada para fora da linha, porque isso deixaria o próprio rei em xeque. É por isso que se chama absoluta: não há escolha.
Nessa posição, o cavalo de c6 não pode se mexer de jeito nenhum. Uma cravada absoluta é o momento ideal para atacar a peça cravada com algo mais barato, por exemplo um peão: ela não tem como fugir.
Cravada relativa
Quando a peça de trás é a dama, uma torre ou outra peça valiosa, mover a peça cravada é legal. A pergunta é se vale a pena.
A cravada relativa engana muita gente, porque às vezes a peça "cravada" sai mesmo assim, com um golpe maior. O exemplo clássico é a armadilha do elefante, nessa mesma abertura:
As Brancas acharam que o cavalo de f6 estava preso e capturaram em d5. Mas ele saiu, entregando a dama, e o xeque de bispo em b4 recuperou tudo. No fim, as Pretas ficam com uma peça a mais por um peão.
Moral: cravada relativa não é absoluta. Antes de contar com ela, confira se o adversário não tem um xeque ou uma ameaça maior.Como explorar uma cravada
Encontrou uma peça cravada? Estas são as formas mais comuns de lucrar com ela:
- Ataque a peça cravada com algo mais barato. Um peão que ataca um cavalo cravado no rei ganha o cavalo, porque ele não pode fugir.
- Acumule atacantes. Como a peça cravada não pode fugir, você tem tempo de trazer mais atacantes do que ela tem defensores.
- Lembre que ela não defende de verdade. Uma peça cravada no rei não pode capturar fora da linha da cravada, então as casas que ela "protegia" ficam livres.
Cravadas típicas da abertura
Muitas aberturas populares giram em torno de uma cravada, e conhecê-las ajuda a não cair em armadilhas:
- Bb5 contra o cavalo de c6 (Abertura Espanhola, ou Ruy López): vira cravada absoluta quando o peão de d7 sai do caminho; antes disso, o bispo apenas ataca o cavalo.
- Bg5 contra o cavalo de f6: cravada relativa, com a dama em d8 atrás. Aparece em várias aberturas de 1.d4.
- Bb4 contra o cavalo de c3: a versão das Pretas, por exemplo na Defesa Nimzo-Índia (1.d4 Cf6 2.c4 e6 3.Cc3 Bb4).
- ...Bg4 contra o cavalo de f3: cravada relativa na dama de d1, comum em muitas defesas.
Nenhuma dessas cravadas ganha material sozinha. Elas criam pressão: a peça cravada fica menos útil, e qualquer descuido (um peão que avança, uma peça que se soma ao ataque) pode decidir a partida. Um erro comum de quem sofre a cravada é tentar quebrá-la a qualquer preço com ...h6 e ...g5 (ou h3 e g4): às vezes funciona, mas os peões avançados enfraquecem o próprio rei.
Como se livrar de uma cravada
- Tire a peça de trás da linha. Se o rei ou a dama saem da linha, a cravada desaparece.
- Coloque uma peça no meio. Interpor outra peça entre a que crava e a cravada também quebra a cravada, desde que a nova peça não fique em perigo.
- Ataque quem crava. Um peão que expulsa o bispo (como ...a6 contra Bb5, ou ...h6 contra Bg5) resolve muitos casos.
- Previna: evite deixar rei e dama na mesma diagonal ou coluna com uma peça só no meio.
💡 Dica: a cravada é prima do espeto. Na cravada, a peça da frente vale menos; no espeto, a da frente vale mais. Aprender um ajuda a enxergar o outro.
Exercícios de cravada
Dica
Olhe a diagonal que sai do bispo de b2 e termina no rei de h8.
Ver solução
1.Dh6#
1.Dh6# — o peão de g7 está cravado pelo bispo de b2 e não pode capturar a dama. O rei não tem casa: g8 está ocupada pela torre e h7 é atacada pela dama.
Dica
A dama de d7 e o rei de e8 estão na mesma diagonal.
Ver solução
1.Bb5 Dxb5 2.Cxb5
1.Bb5 crava a dama no rei. Ela não pode sair da diagonal, e o bispo está protegido pelo cavalo de c3. O melhor que as Pretas conseguem é 1...Dxb5 2.Cxb5: dama por bispo.
Dica
O cavalo de e5 está na coluna e, entre a torre de e1 e o rei de e8. Ele não pode fugir.
Ver solução
1.f4 De7 2.fxe5
1.f4 ataca o cavalo cravado com um peão. As Pretas podem defendê-lo (1...De7), mas não salvá-lo: 2.fxe5 dxe5 e as Brancas ganham um cavalo por um peão.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre cravada absoluta e relativa?
Na absoluta, a peça de trás é o rei, e mover a peça cravada para fora da linha é ilegal. Na relativa, a peça de trás é outra (em geral a dama ou uma torre), e mover é legal, mas costuma perder material.
Quais peças podem cravar?
Só bispo, torre e dama, porque só elas atacam ao longo de linhas. Cavalo, peão e rei não cravam.
A peça cravada ainda dá xeque?
Sim. Uma peça cravada continua controlando as casas que ataca: o rei adversário não pode entrar nelas, e ela pode até dar xeque. O que ela não pode é sair da linha da cravada se isso expuser o próprio rei.
Como treinar a cravada?
Resolva exercícios e, nas partidas, procure peças adversárias alinhadas com o rei ou a dama. Veja também o mapa geral das táticas de xadrez.